o dia está cinzento: são assim as despedidas.
o choro contido e as saudades já sentidas.
após dois anos e meio, hoje, foi o fim.
enfim.
o dia está cinzento: são assim as despedidas.
o choro contido e as saudades já sentidas.
após dois anos e meio, hoje, foi o fim.
enfim.
Dele pouco conhecia até entrar naquela sala. Sabia brevemente sobre sua carreira como fotógrafo, e que lecionava em uma escola no Complexo da Maré. As características fortemente documentais e expressivas de seu trabalho já haviam chegado aos meus ouvidos, e, ansiosamente, esperava por ver tal expressividade impressa.
Admito que senti um pouco de receio, seriam mais algumas fotografias sociais, retratos da miséria, da fome e de pessoas em estados nada agradáveis ao olhar. O próprio título “Imagens Humanas” passou-me uma sensação tão íntima que tive medo de envolver-me com o que ali estaria retratado.
Minhas mãos receberam o convite de um grande amigo, e no momento em que meus olhos vaguearam pela imagem de um pequeno índio com um arco soube que, naquela noite, conheceria um tesouro.
Adentrei a galeria ansiosa. Tinha a certeza de que ali estariam pessoas incríveis. Estava envergonhada, essa era a verdade. Ainda com a galeria vazia pude caminhar calmamente entre as imagens. Sentia-me uma voyeur, os títulos não me contentavam, ansiava pela história de todos aqueles retratados. Em instantes, minha mente deixava o Rio de Janeiro, e via-me caminhando em cidades do interior do país. No trajeto, encontrava aquelas personagens. Aqueles homens e mulheres, as crianças e os idosos com seus olhares expressivos. Quando dei por mim, tinha os olhos marejados e a boca entreaberta. Não conseguia encontrar palavras para descrever a sensação que aquelas imagens causavam-me.
Olhei ao redor e vi fotógrafos que admiro, mas não conseguia pensar em nada para falar, estava extasiada. “As fotos estão incríveis”, eram as únicas palavras que conseguia dizer. Em sua simplicidade, por algum motivo elas tocaram-me.
Procurei decifrar os demais olhares e expressões. Queria desvendar o que todos pensavam. Surpreendi-me com rostos alegres, também deslumbrados contemplando as imagens. Entre tantas pessoas, deparei-me com o fotógrafo, o responsável por aquilo tudo. João Roberto Ripper estava claramente tímido. Nos olhos daquele grande artista, pude ver a emoção de um menino. Seu olhar marejado e um tanto quanto envergonhado diante das câmeras cruzou o meu quando finalmente tive coragem de aproximar-me: “As fotos estão lindas, parabéns.”
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