no caixa ao lado, ele comprava sorvete de chocolate belga.
com fones nos ouvidos, ao som de lembranças inesquecíveis, ela segurava um pacote de café em pó e alguns pães doces.
ele a observava. ela o intrigava.
apesar da saia e do guarda-chuva colorido pendendo da bolsa, aquela menina mais lhe parecia uma mulher.
alguns, ao notar a estranheza de seu figurino, viriam alguém solitário. ele diria apenas sinais de maturidade e simplicidade.
podia imaginá-la sentada em uma cadeira vermelha ao canto de uma sala iluminada por uma grande janela. repousado em seu colo está um clássico romance, e suas mãos ocupam-se com uma grande caneca de café e um dos pãezinhos.
mesmo de longe, ele sente seu perfume. não sabe porque, mas tem o ímpeto de abraçá-la.
por um instante, seus olhares se cruzam, e ao vê-lo lhe observando, ela sorri, simpática.
September 16, 2009
sacolas plásticas
August 21, 2009
amor remoto
ansiosa. esperava.
sua companhia, esparsa, agradava-a.
não encontravam-se com frequência.
frequência talvez fosse mesmo algo remoto, mas, ainda assim, memorável.
em seus pensamentos guardava aqueles momentos.
e, ainda que incerta, via em seus braços um porto seguro.
seguro.
segura-me.
leva-me.
leve.
August 12, 2009
um pouco além.
um amor momentâneo.
era isso o que ele lhe propunha. uma noite, alguns dias. mas, nada mais.
os dias passariam normais, e se voltassem a se encontrar, tudo seria de novo momentâneo, e nada mais.
neste acordo, sentiriam-se satisfeitos, ora, afinal seria perfeito alguém para dividir a cama naquelas noites frias de inverno.
mas não era aquilo que queria, estes prazeres momentâneos não a satisfaziam. não mais. sentia falta de outras coisas.
continuaria procurando-as. esperando algo além. um perfume que sentira em seus sonhos. o seu abraço aconchegante. e nada mais.
July 21, 2009
vô.
corredores familiares, rostos que já não se lembram mais de mim.
ambiente pesado, mas posso mesmo ouvir meu coração bater.
olho em volta e já conheço aqueles caminhos azulados, mas o motivo que me trás aqui hoje é outro.
sentada em uma cadeira ao canto, vislumbro lembranças.
e elas não me são nem um pouco agradáveis.
devo aguardar; é importante, e talvez não demore.
mas não consigo, me levanto.
estou sufocada, e o choro teima em se mostrar.
já se passaram quase seis meses, mas ainda não tenho forças.
você as levou consigo.
e agora sinto que preciso recuperá-las.
talvez quinze minutos, acho que não mais.
não consigo mais.
/ sinto sua falta sempre.
July 15, 2009
dadá
meu nome é paula, tenho 20 anos, moro em copacabana. meus pais sao casados e moram em sao pedro da aldeia. tenho um irmão que mora em são paulo (e eu morro de saudades) e uma irmã que é casada e tem uma filha. nasci em petropolis, mas nunca morei la. morei onze anos em brasilia e morro de saudades. tenho uma paixao louca por museus e centros culturais, coisa que eu aprendi com o meu avo, que morreu esse ano. é culpa dele também o meu amor por história da arte e por fotografia. sou louca de paixão pela minha avó e pelo meu carro. adoro chocolate e não gosto mesmo de macarrão. amo fotografar os outros, mas morro de vergonha quando apontam uma câmera pra mim. sou tímida demais, sabe.
tenho vários amigos, e sei que nem todos são daqueles que a gente pode contar sempre, mas amo todos mesmo assim. alias, amo muita gente de graça. é tipo, “se sorrir eu já te amo”. haha. sou boba, boba. me encanto e me apaixono por um monte de coisa. desde um objeto fofo a um cara. tenho probleminhas com relacionamentos. e sou carente, muito.
tenho um medo louco de estragar umas amizades masculinas lindas que eu tenho. não pelos caras, mas por mim, porque, de novo, eu me encanto muito fácil, e pode não ser a mesma coisa. enfim, preciso aprender a me desapegar de homens, amigos e coisas.
choro à toa. até com propaganda de manteiga. mas não me irrito muito fácil. isso é um defeito, eu guardo tudo pra mim, nunca discuto. ou então, choro. de novo. custo a me soltar, a conversar sobre coisas sérias com alguém, mas quando vejo que posso, não paro de falar nunca.
não estou nada certa do que eu quero do meu futuro profissional. eu sempre quero mais e mais. me enfio em varios cursos e ao invés de ajudar, eles parecem aumentar a minha dúvida. tenho vontade de fazer tudo. mas também tenho fases. passei da fase jornalismo. agora tô na fase fotografia, e tô tentando, porque quero muito continuar nela. tenho uma compulsão louca por msgs de celular, mas gosto mais ainda de falar pessoalmente ou pelo telefone.
nao suporto a distância que o msn causa, mas também não consigo ficar longe dele. é como se conseguisse estar mais “próxima” de pessoas que na verdade estao logo ali. gosto muito do rio, e sinto falta de aproveitar mais a cidade. esses programas bobos e baratos que so o rio tem, sabe? jardim botanico, parque lage, centro da cidade… AMO o centro da cidade. moraria por ali tranquilamente. pode parecer louco, mas eu me perco caminhando ali, fico horas e horas e parece que o tempo nao passou. é uma viagem, sabe? aqueles predios, imaginar aquelas historias.. tenho milhares de textos na minha cabeca, mas quase nao os escrevo. por preguica, eu acho.
não tenho muita paciencia pra televisão, mas admito que às vezes, aos domingos, fico horas assistindo aqueles reality shows do people and arts. nao tenho a mínima paciencia pra pessoas que fingem que entendem de assuntos que eu gosto. da agoniazinha, sabe? tipo, “dê palpite qando sabe do que tá falando”. tenho uma coisa muito séria com o meu espaço, com os meus sentimentos. não gosto de dormir sozinha, gosto de acordar e ter alguem por perto. e morro de medo de escuro. se acordo de noite, nao durmo mais.
enfim, chega!
June 25, 2009
nuvens
o dia está cinzento: são assim as despedidas.
o choro contido e as saudades já sentidas.
após dois anos e meio, hoje, foi o fim.
enfim.
June 9, 2009
Dele pouco conhecia até entrar naquela sala. Sabia brevemente sobre sua carreira como fotógrafo, e que lecionava em uma escola no Complexo da Maré. As características fortemente documentais e expressivas de seu trabalho já haviam chegado aos meus ouvidos, e, ansiosamente, esperava por ver tal expressividade impressa.
Admito que senti um pouco de receio, seriam mais algumas fotografias sociais, retratos da miséria, da fome e de pessoas em estados nada agradáveis ao olhar. O próprio título “Imagens Humanas” passou-me uma sensação tão íntima que tive medo de envolver-me com o que ali estaria retratado.
Minhas mãos receberam o convite de um grande amigo, e no momento em que meus olhos vaguearam pela imagem de um pequeno índio com um arco soube que, naquela noite, conheceria um tesouro.
Adentrei a galeria ansiosa. Tinha a certeza de que ali estariam pessoas incríveis. Estava envergonhada, essa era a verdade. Ainda com a galeria vazia pude caminhar calmamente entre as imagens. Sentia-me uma voyeur, os títulos não me contentavam, ansiava pela história de todos aqueles retratados. Em instantes, minha mente deixava o Rio de Janeiro, e via-me caminhando em cidades do interior do país. No trajeto, encontrava aquelas personagens. Aqueles homens e mulheres, as crianças e os idosos com seus olhares expressivos. Quando dei por mim, tinha os olhos marejados e a boca entreaberta. Não conseguia encontrar palavras para descrever a sensação que aquelas imagens causavam-me.
Olhei ao redor e vi fotógrafos que admiro, mas não conseguia pensar em nada para falar, estava extasiada. “As fotos estão incríveis”, eram as únicas palavras que conseguia dizer. Em sua simplicidade, por algum motivo elas tocaram-me.
Procurei decifrar os demais olhares e expressões. Queria desvendar o que todos pensavam. Surpreendi-me com rostos alegres, também deslumbrados contemplando as imagens. Entre tantas pessoas, deparei-me com o fotógrafo, o responsável por aquilo tudo. João Roberto Ripper estava claramente tímido. Nos olhos daquele grande artista, pude ver a emoção de um menino. Seu olhar marejado e um tanto quanto envergonhado diante das câmeras cruzou o meu quando finalmente tive coragem de aproximar-me: “As fotos estão lindas, parabéns.”
May 28, 2009
Novas travessias
A princípio, uma quarta-feira comum.
Acordara atrasada, como o habitual.
Em respeito à rotina pré-estabelecida, levantou-se correndo.
O despertador já passara das 7h quando enfim serviu-se da medida habitual de café.
Perderia os primeiros momentos de aula mas, como o habitual, alimentaria seu vício com toda a calma.
Na rua os ônibus passavam com a habitual pressa.
Entre inúmeros carros e afoitos passageiros, decidiu-se por tomar outro caminho.
Precisava esquivar-se do hábito, queria mudanças.
O já familiar motorista esperava que entrasse na condução. Mas não naquele dia.
Naquele dia optou por algo diferente, algo novo.
O corriqueiro não a satisfazia mais.
No ar, procurava um perfume diferente do habitual, procurava rostos e pessoas estranhas.
Decidiu atravessar a avenida, e no meio da travessia, o encontrou.
Em caminhos opostos, olhares cruzaram-se e tornaram-se um só.
Ali, nas listras desenhadas no pavimento, soube: refaria aquele caminho por dias.
May 15, 2009
O fim é sempre um recomeço.
Não quero parecer repetitiva.
Nem ao menos prender minha imaginação a algo.
Mas, não consigo.
Hoje à tarde, voltando da faculdade folheei as últimas páginas do livro do Sabino.
É engraçado, a sensação de estar chegando ao fim de mais um livro dele não me alivia como em muitos outras obras – como acontece com as de suspense, por exemplo. Com o Sabino, a sensação é de que o fim é sempre um recomeço, que ao final de uma crônica, outra melhor ainda estará logo ali na esquina, esperando para ser deliciada.
Mas, com o “A vitória da infância” não foi assim.
Lia aquelas páginas com a voracidade que empenhei em todos os outros. Tinha sede, queria mais. E ele me dava, sempre mais.
A cada história, uma sensação era despertada; podia ser um sorriso, um aperto ou até mesmo o princípio de choro.
Não importa; suas histórias me tocam, como muitas outras não o fazem.
O menino de Minas é um ótimo companheiro para meus passeios diários. Tenho-o sempre à mão, seja em livro, ou em frases anotadas rapidamente no caderno.
Hoje, tive sua companhia no caminho da faculdade até Ipanema. Nossas conversas foram ótimas, posso dizer que ele alegrou meu dia com suas lembranças infantis e inocentes – salvo algumas exceções. Por instantes sorri. Sorri como uma criança que ganha um presente que desejava, sorri como alguém que escuta algo esperado. Em momentos seguintes, chorei. Meus olhos logo ficaram turvos e tive vontade de chorar também como uma criança quando cheguei ao capítulo “A última crônica”.
Estava entretida em suas linhas, ansiosa pelo que aconteceria com aqueles três personagens. Meu coração batia mais rápido; meus olhos, já turvos, fixavam-se naquelas palavras com uma paixão inexplicável. Quando dei por mim, o ônibus já havia há muito passado pelo Rebouças e estávamos quase no Leblon. Em um pulo, via-me às margens da Lagoa. As lágrimas corriam soltas, incontroláveis.
A história que acabara de ler me tocara como já o fizeram diversas outras. Mas, era diferente. Talvez pelo título, talvez pelo que esperasse como um fim. Mas não. Fui tocada pelos personagens. Pelo sorriso simples e delicado daquele pai. Pelos gestos infantis da menininha, e pelos olhares ternos da mãe.
Percebo agora que enquanto lia aquelas frases, imaginei-me na cena. Via-me não apenas como uma mera espectadora, era uma das personagens, vivia aquele momento. Intensamente. Como ele sempre os viveu. Pude vê-lo ali, sentado a um canto, espiando e guardando pequenas anotações. Pude imaginar o que pensava, e também o que sentia.
Talvez nada disso faça muito sentido.
Mas hoje, em lágrimas, estive próxima a ele.
May 13, 2009
“Quem embarca nas palavras viaja com a imaginação”
Desde pequena, tenho fascínio por livros.
Antes as imagens me atraíam; adorava desenhos, pinturas, retratos e mesmo rabiscos.
Hoje, essa atração é unida à escrita.
Seja ela em português, inglês, francês ou espanhol, as letras sempre me atraem.
Mas, sem contrariar meus hábitos infantis, rendo-me a muitos livros pelas capas.
Em branco, com muitas cores, com fotografias, aquarelas ou apenas tipografia, cada uma me impele de uma maneira diferente, e quando dou por mim, já estou imersa naquele universo de letras, palavras, diálogos e histórias.
Dia desses, andando pelo Centro no horário de trabalho, passei por aqueles livreiros que montam seus stands na Cinelândia.
Como não podia deixar de ser, o que antes era uma simples passagem, tomou quase uma hora da minha tarde.
Livros de arte, música e cinema ali formam uma incrível composição com outros tantos de literatura brasileira, literatura mundial (achei até mesmo um livro Tcheco!), esoterismo e culinária.
Entre alguns “estou só olhando” e outros “quanto custa esse?”, choraminguei por descontos e sai dali com dois livros ótimos, por apenas 3r$ cada um.
O primeiro deles, chamou-me a atenção pela capa.
De um couro vermelho, antigo e desbotado pelo tempo, o “Le desert de l’amour” ganhou-me pelas páginas amareladas e por um simples adesivo colado com cuidado em sua contracapa. No pequeno quadrado azul marinho, encontram-se informações do local de compra: Livraria Triângulo Ltda. – São Paulo: Rua do Thesouro, 33/35. Fone: 22733. – sim, Rua do Thesouro ainda escrito com o “h” e o telefone com apenas cinco dígitos. Ao perceber estes“simples” detalhes, passei rapidamente à página de créditos e constatei: aquele grupo de folhas empoeiradas era um livro, de 1925.
Por instantes, hesitei em comprá-lo. Afinal, era só um livro antigo, nada sabia sobre ele, não tinha lido críticas, muito menos escutado opiniões. Era apenas mais um livro de um sebo qualquer.
Mas não, não era. Percorri as páginas, com curiosidade de uma criança em busca de um tesouro escondido, e deparei-me com duas simples ilustrações que o decoram. A primeira, de uma menina deitada lendo em sua cama ganhou-me pela serenidade retratada nos simples traços que compõem o desenho. Enquanto a segunda, que mostra um jovem casal (claramente francês pelos trajes que portam), próximo a um bonde, fez com que me perdesse em suas linhas e despertasse algumas lembranças. Voltei aos livros de minha infância, e mesmo sem saber o seu enredo, paguei-o e guardei na bolsa, entre papéis soltos, coisas da faculdade e a máquina fotográfica. Ainda hoje, quatro dias depois, não comecei a lê-lo. Detive-me na segunda compra.
Com um menino olhando-me pela capa, a coletânea “A vitória da infância” pulou às minhas mãos, como fazem os meninos que brincam e correm nos contos ali escritos. Por coincidência, aquele menino era-me familiar. Tratava-se de um Fernando Sabino ainda garoto, com aquela inocência que nunca deixou seu olhar. É o quinto livro de Sabino que me cai assim nas mãos, e, como todos os outros, me conquista em segundos. Não hesitei, comprei-o com algumas moedinhas perdidas no bolso, como por vezes faz o mineirinho dos contos: em seus bolsos carrega todo seu tesouro.
Passando à primeira página, meus olhos prenderam-se em uma única frase: quem embarca nas palavras viaja com a imaginação. Ali tive certeza, tinha comigo um tesouro, ou melhor, uma seleção deles. Pelo preço de um maço de cigarros, comprei algo para guardar pela vida. Histórias e memórias de um Sabino ainda menino de Minas Gerais, de um Sabino pai cauteloso, e, de um Sabino pai-menino-poeta-exemplo. Exemplo, é o que sempre será para mim.
Em suas linhas simples, que por vezes assemelham-se a meras anotações ligadas por frases conectivas, Sabino leva minha imaginação a campos antes inalcançáveis. Como aconteceu com “O encontro marcado” e “O grande mentecapto”, perco-me novamente em suas linhas, livremente traçadas e sabiamente escritas.
De alguma forma, ele sabe melhor que nenhum outro prender minha atenção, tanto que, libertando-me do paraíso literário em que me encontrava, peguei o ônibus para voltar ao trabalho e deixei passar o ponto…